segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Papai Noel está Viciado

Impossível, o velho Noel não conseguiria atravessar o mundo e distribuir presentes a todos. Não a base de leite e biscoitos. A grande verdade demonstra que Papai Noel definitivamente detesta a bebida saudável rica em cálcio; ele gosta mesmo é da preciosa cafeína. Contudo, a entrega e a produção dos presentes dependem não só da quantidade de café.

Nos últimos anos, a exigência se intensificou. Encaremos os fatos, Papai Noel não tem tecnologia suficiente para produzir videogames e computadores de última geração. Muito menos a magia capaz de erradicar a pobreza. O coitado está tão sobrecarregado que passou a abusar do café. Seu médico recomendou o café descafeínado, mas Noel encontrou muitas dificuldades de adaptação. Papai Noel estava viciado.

O velhinho de capuz vermelho perdeu o controle. A sociedade está nervosa, confusa. Antigamente, bastava acomodar o corpo de ossos largos na abertura minúscula da chaminé. Agora, o sistema de segurança se tornou sofisticado, há cercas eletrônicas até no telhado. Papai Noel responde a inúmeros processos por invasão domiciliar.

Aliás, vale destacar a importância das redes sociais no processo de marginalização do bom (?) velhinho. Por exemplo, as correntes no facebook estão acusando Noel de roubar um aniversariante de Belém. O símbolo de bondade e consumo teria invadido a festa do menino Jesus, roubado os presentes e distribuído por aí...

No último Natal, o velho de barbas brancas se deitou na calçada com uma garrafa de café para recuperar o fôlego. Foi acordado a pontapés; os pontapés da lei e da ordem. Para piorar, recebeu uma multa por estacionar em local proibido. Outras denúncias apontam para o nome de Noel como dono de um fábrica de trabalho escravo. Tudo vai mal; até a safra de café. Por que esperar 2012?

Minha Paixão Sem Título

Quem é ela?

Essa ninfa feita de lua, rosa e mel;
da boca rosada, da pele macia,
dos traços ingênuos, e do olhar disperso;
que não coube num só verso?

Está perdida entre o tempo e o espaço,
confusa nessa imensidão de cores e dores;
a espera daquela brisa de amores,
que balança os cabelos e sopra um beijo.

Ela passa pelo meu lado; e encanta.
Sem querer, faz uma promessa de amor;
e então desaparece na névoa do desconhecido,
cantando as suas cantigas silenciosas

domingo, 9 de outubro de 2011

Poço sem Boca

Leio o mesmo texto,

mas ainda não entendi.
Não quero mais ler,
mas leio.

Quem se importa?
Só, no labirinto sem porta.
Rima estúpida, vida esquisita.
Pois é.

Não há sentido,
não precisa haver.
A roda gira e o mundo finge.
Fluxo torto, morto.

A vida passou.
Esqueci de quem sou
Ou não lembro se fui?
Acabou?

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

All-In

A verdade é que nunca aprendi a jogar poker. Verdade que não impediu o carteado daquela noite A sala abafada das paredes de concreto, do teto baixo, da luz fraca, do chão nu - o palco da minha ruína. Não se escolhe o lugar do jogo, as coisas simplesmente correm do nosso alcance, como a vodka que foge da garrafa de vidro para os confins da garganta do sujeito a minha esquerda.

Viram as cartas na mesa. Eu não tenho nem mesmo um par. O bebedor de vodka, homem barbudo, bonachão, gesticulador, solta um grito estridente de vitória e entrega-se a uma risada típica dos gorduchos de pele rosada. Mas ele não é o melhor jogador. A tímida dama, sentada a sua esquerda, tem o faro para o jogo. Não se engane! Os olhos inocentemente arredondados e os lábios tremulando um cândido rosado são blefes puros; mas o careca, que completa a mesa, nem desconfia [otário].

O suor escorre pela barba, percorre a face lentamente e ele sorri um riso forçado, espremido. Aos poucos, a mesa dá sinais de cansaço e gorducho de olhos chorosos não enxerga mais nenhuma ficha ao seu lado. Atrapalhado, abandona a salinha com movimentos vagarosos e desorientados.

“Aposto todas as fichas, posso?”. Ela apostou tudo com um jogo desses? Que garotinha ingênua. Sortuda de primeira viagem. Claro que pode sua bobinha! Agora eu pego de volta todas as fichas. O careca passa a mão pela cabeça molhada e suspira: “Não precisar se culpar, o carteado é coisa para homens”. Com a mão direita, coloca todas as suas fichas (que somavam um pouco menos do total das fichas dela). Eu saio, como quase sempre. Faltava uma carta. A carta é virada. O careca fica paralisado. O jogo prossegue sem ele.

Um bom momento para acreditar em esperança. Pedi uma taça de vinho, ela pediu uma xícara de chá. Desestabilizou o meu emocional, entrou no meu psicológico. “Apostar ou não apostar?” As cartas giram até eu ficar sem fichas. Cretina. Sei, sou um péssimo perdedor. O fiscal do jogo, homem calvo e risonho, dá dois tapinhas nos meus ombros, algo do tipo: “Não era para ser velhinho.Quem sabe na próxima.”

- Umas moedas para o ônibus?

- Obrigado, senhorita.

Algum dia desses o joguinho me mata. Talvez, eu peça umas lições para a mocinha. De repente, já estava no ônibus, após um breve desentendimento com as escadas. São cinco paradas até minha casa. O novo dia se espreguiça e os primeiros raios de luz salpicam o meu rosto.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Cadeira Vazia

O julgamento estava prestes a começar, no entanto, uma cadeira permanecia desocupada. O júri e os demais presentes já esboçavam impaciência ao verem o grande relógio digital marcar 20h e 21min. O réu deveria estar acomodado há 21min no macio estofado azul, mas não estava.

No banheiro de uma lanchonete, próxima ao tribunal, um jovem de paletó cinza, camisa branca e gravata azul, frouxa. Olhava fixamente o seu reflexo num espelho 30x20. Sabia do seu compromisso, porém questionava-se: “Por que devo ir?”. Todos os dias ele ia para o tribunal, no mesmo horário e pelo mesmo pretexto - prestar contas. Tal hábito incomum pode parecer estranho aos que desconhecem a rotina de Samuel Samuelson. Ele não era um criminoso, nem algo do gênero. Era apenas um simples jovem de classe média.

Como se não bastasse o dia cansativo, também havia o julgamento de praxe. O juiz, geralmente, afirmava que se tratava de um aconselhamento e não de um julgamento de fato. “Mas eu não pedi conselhos”, queixava-se. Garoto arrogante e insensível esse Samuel Samuelson! “Santidade não é o título que quero abraçar, meritíssimo!”. “Mas não está certo, rapaz. Diga isso, faça isso.”.

Hoje, o diálogo não seria o de sempre. Samuel só queria o direito de permanecer calado. No lugar da presença, uma carta disposta na mesa por um pequeno mensageiro de canelas finas e rosto imberbe. O juiz recolhe o envelope, abre-o, retira a folha de caderno e lê em voz alta:

“Caríssimos e caríssimas,

O nervoso e despreparado, em questão, pede a concessão de um momento regido pela paz, sem preocupações, no qual conversemos como gente a fim de escutar uma voz amistosa na noite fria ou quente de qualquer lugar.

Atenciosamente,

Samuel Samuelson ”

Todos se entreolham com rostos confusos. Será que entendem Samuel? Não? Não.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Agridoce

Numa praça desengonçada, escondida no meio de alguns prédios, dois velhos amigos se veriam novamente. A pracinha não fazia parte da paisagem urbana, era apenas uma fugitiva, que tentava não ser devorada pela gula do cimento. Porém, o cinza sempre avança e deixa as suas marcas. Lá, além da grama rala, havia alguns banquinhos de cimento, mesinhas de cimento e até arvorezinhas de cimento.

Um visitante solitário contemplava pensativo o novo cenário, ao passo que se lembrava de tempos mais vivos, de outrora. Esse saudosista estava sentado diante de um tabuleiro de xadrez. As peças ansiosas aguardavam as ordens, mas nada aconteceu. Pode-se ouvir os peões cochichando “e agora?”; os cavalos relinchavam impacientes; os bispos mantinham a postura conveniente aos homens da santíssima igreja; as torres permaneciam silenciosas, como cabe as torres permanecer; os reis suspiravam aliviados, enquanto as rainhas lançavam olhares vigilantes.

Alguns minutos passaram e a angústia no tabuleiro só aumentava. Entrementes, o homem baixou a cabeça, mergulhando no passado. Imerso, refez cada escolha e, novamente, percorreu o caminho que o levara até aquele momento. Tudo tão longe, porém ainda tão latente. Não demorou muito para que uma senhora, que, apesar de senhora, detinha grande beleza, sentasse no outro banco. O senhor de cabelos níveos levantou o olhar e, por um breve instante, viu o rosto de uma jovem de olhos cor de avelã. Os fios castanhos, a pele macia e o beijo que fora roubado dos dois. No entanto, aos poucos, a visão se encontrou dentro das dimensões de tempo e espaço. O castanho tornou-se branco, o macio ficou áspero, mas os brilhantes de avelã ainda cintilavam.

- Já faz tanto tempo – as palavras dela ressoaram doces e melancólicas.

- É, já faz tanto tempo – o velho disse com um ar pueril.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Casulo

O quarto - pequeno, de paredes frias - envolve o oco.Nele, um corpo de olhar inerte jaz sobre a cadeira de ferro. O escritor persegue pensamentos dispersos, confusos. O lápiz aguarda apreensivo aos comandos . Nenhuma linha do papel é preenchida, parece que tudo já foi escrito antes.

O escritor ainda não está pronto.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Quasímodo e Esmeralda.

Estavam frente a frente, o corcunda e a cigana. Trocaram olhares e perceberam que estavam no século XXI, contudo a história sempre se repete, mesmo que com peculiaridades. O tipo imperfeito encarou aqueles olhos verdes preciosos e disfarçou um sorriso desajeitado. Ela, altiva, tentava expressar alguma compaixão torta mesclada ao medo do imperfeito. No fundo, tinha até certo nojo do corcunda. Ele a tratava com carinho, por mais que fosse desajeitado e falasse inutilidades a maior parte do tempo; fatos que talvez impediam que ela o excluísse para sempre.

O corcunda então disse:

- Escute, eu poderia viver feliz no seio dessa paixão imperfeita, mas você não poderia. Você vai esperar que eu ganhe forma de príncipe e te busque num cavalo branco. Porém, só posso te oferecer essa forma de plebeu sonhador montado num all star. Esse alguém que te quer de uma forma viva e imperfeita. Posso te oferecer meu coração e minha imperfeição, o resto é o resto.

A cigana ignorou e conheceu o príncipe do cavalo branco. O príncipe era um ser superficial, mas viveu feliz para sempre com a cigana – essa parte é mentira, porque ao ser rei a trocou por uma bela concubina. Já o corcunda aceitou a imperfeição da vida, mas procurou explorar a beleza da mesma. Quasímodo, o corcunda, saiu com os amigos por todo o mundo e viveu paixões de verão. Está feliz hoje, mas sempre guardará um pedaço do seu coração para Esmeralda, a cigana. Moral da história: não há moral da história.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O Escárnio em torno do Copo

A noite de verão que reserva uma sensação estranha; foi assim que John descreveu aquela noite estranha de verão. O óbvio do óbvio, mas o certo. Sentia-se como um copo que caiu no chão, quebrou e permaneceu ali. Parece ruim, aquela sensação de faltar um copo no armário, porém não é tão ruim assim. Aquele copo que caiu é mais um ciclo que se rompe no éter e no piso frio, proporcionando um choque, sim, mas também a possibilidade do novo. Naquela noite, John compreendeu que tudo é um copo caindo e transformando-se em cacos; é ciclo, tudo é ciclo. Utilizar o fato de um copo quebrado para explicar a vida parece absurdo, mas fez sentido para John. Tudo simples – por ser um copo -, trágico –por ser um copo de família: caro e insubtituível- e cômico – por toda essa divagação em torno de um copo. Gargalhou e pensou que escutaria muito por aquele copo espatifado. Gargalhou mais altoe,por fim, adormeceu.Estava louco e quem se importa?

domingo, 23 de janeiro de 2011

Vingança em Cena - 3º Ato

Como era de costume, a multidão tomava conta da praça – uma massa de amorfos, aparentemente, sem sonhos ou qualquer esperança. Maicon ajeitava a gravata e verifica o horário no seu roléx, enquanto um assessor lhe secava o rosto com um lenço. Os policiais, sob as ordens do vil prefeito, começaram a fazer menção de que sacariam as suas armas; de repente, um grito ecoava. Todos gritavam pelo nome de “Maicon” com uma violência assustadora e começavam a aplaudir – mesmo a aclamação e os gritos furiosos não escondiam os rostos tristonhos e moribundos.

Enquanto isso, o artista mascarado permanecia encoberto pelas sombras do casarão; observando o movimento dos capangas de João. O casarão era de madeira e muito antigo, com a estrutura frágil – um local perfeito para um incendiário. O vingador já havia espalhado um líquido inflamável pelo ambiente – formando um caminho para a liberdade. Agora, perto da porta, aguardava pelo momento de ativar o instrumento da nova era; um simples controle remoto que carregava toda a dor e a esperança daquela comunidade.

Havia planejado tudo com antecedência; estudou os arredores da praça, verificou as instalações do casarão e inseriu neste alguns catalisadores, fogos de artifício e explosivos de fabricação caseira que conseguira com um conhecido – que era responsável por fornecer o material para efeitos especiais ao teatro. Tudo estava pronto.

Maicon se aproximava do palanque; era a hora. Lentamente, o mascarado saía do casarão. João farejou o perigo ao ver aquele homem de vestes cinzentas deixando o local.

- Ei, você! Pare! – dizia João, enquanto tentava sacar a arma.

O vingador ultrapassou a passagem e virou-se, a máscara era triste. João estava a uma distância considerável da porta e ainda tentava tirar a arma do coldre, em meio a passos desajeitados, também tentava se aproximar do alvo; até que tropeçou e caiu estirado de bruços; olhou mais uma vez para aquela figura sombria; viu a porta sendo fechada; ouviu o barulho das chaves, dos passos se afastando e, por fim, da explosão. João e seus capangas estavam no inferno.

A explosão foi gigantesca e o fogo consumiu o casarão. No céu, os fogos de artifício anunciavam o fim da era do medo. Maicon e o restante da sua corja olhavam atônitos para o casarão em chamas e para a figura de máscara feliz que emergia da fumaça. Os fogos de artifício refletiam a esperança nos olhos da multidão, que ganhava vida e contorno.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Antes que Josef Caia (continuação)

Perdeu a consciência, a sorte e a esperança. Agora a queda fatal beijava a sua nuca, o fim estava ali naquele chão. Chão de uma floresta, conhecida pelos nativos como “a floresta que não esquece”. Ouviu-se o estrondo de um corpo chocando-se nos galhos das árvores e, por fim, caindo bruscamente num amontoado de terra e folhas mortas; seria um bom recurso literário dizer: “Mortas com ele, mortas como ele”. Contudo, Josef ainda vivia, por milagre ou sincronia espaço-temporal, não se sabe ao certo; mas ainda vivia.

Seus ossos foram pulverizados na queda, só conseguiu levantar vagarosamente as pálpebras e nada mais. Durante um átimo, verificou vários vultos ao seu redor; depois apagou. Acordaria alguns dias depois numa cabana simples, rodeado por nativos que presenciaram Josef levantar e dar os primeiros passos; era cientificamente impossível, por sorte, os nativos não se guiavam cegamente pela ciência.

A forma como Josef chegou até aquela circunstância e, ainda sim, sobreviveu, permanece desconhecida, porém, nas rodas ao redor das fogueiras, os mesmos nativos que ajudaram Josef, falam sobre um homem expulso dos céus; que se esqueceu de morrer.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Antes que Josef caia


Quando abriu os olhos, Josef percebeu que estava caindo em queda-livre. As nuvens ficavam distantes e o que mais precisava também. O vento escorregava pelo seu corpo, que entorpecia. Tudo parecia claro e certo como o chão que o aguardava. Percebeu que de nada adiantavam todos os conhecimentos que acumulara. Uma vez disseram que ele sabia tudo e gostava de impressionar por isso, mas na verdade não passava de um remédio para insônia; naquele momento, em que a alma e o corpo parecem se separar, Josef reconhecia esse infortúnio.

Esticava seus braços para o alto, tentando, ridiculamente, alcançar o que mais precisava. Esboçava um sorriso e pensava: “Eu não sei nada, porque não sei voar”. Trocaria tudo o que sabia pela oportunidade de voar e alcançar o que mais precisava.

Os anjos e, também, os demônios tocavam a marcha fúnebre; Josef agora já podia até escutar o som de um triste piano. - Desculpe-me, desculpe-me, desculpe-me... – murmurava. Esperava por um milagre, mas não sabia se acreditava em milagres.

(continua...)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Vingança em Cena - 2º Ato

Às 18h Nestor preparava-se para sair da sua empresa. Estava guardando seus papéis em uma pasta de couro marrom. No escritório, só ele e um faxineiro que acabara de entrar.

- Já estou saindo, termine de limpar rápido e vá arranjar outra coisa para fazer.
- Sim,senhor - disse o faxineiro que estava de costas para Nestor.

“Esses empregados babacas...” murmurou Nestor fazendo uma careta esdrúxula. O vil empresário abaixou-se para pegar um documento;olhou para a esquerda, olhou para a janela e,por fim, olhou para o reflexo. Ficou sem ar, não acreditava no que via; o faxineiro vinha na direção dele e usava uma máscara alegre, daquelas de teatro. Espantou-se e virou a fronte na direção do mascarado, uma nova surpresa; a máscara agora era de uma tristeza que beirava a raiva.

- Que..quem é você? - gaguejou Nestor.

- Quem sou eu? Eu sou o anjo caído, o filho amado, a sombra sinistra e o namorado apaixonado, ou melhor, o fantasma que mora o teatro.

- Mas...mas... Todos morreram, como pode.

- Já disse, sou um fantasma. Mas chega de conversa, o show começa e termina agora.

Antes que Nestor ousasse pronunciar outra palavra, o fantasma mascarado esfaqueou-o várias vezes. O corpo ensanguentado do empresário jazia no carpete azul; uma cena que não é para estômagos fracos, sem dúvidas.

Na manhã seguinte,sábado, o jornal informaria que o empresário Nestor Figueira morreu de ataque cardíaco na noite passada. Mais mentiras; bom, tinha um fundo de verdade. Maicon e João sabiam o que tinha acontecido; Nestor havia morrido esfaqueado, por uma figura desconhecida, um “anônimo”.

Os capangas de João e a polícia estavam trabalhando duro para encontrar o assassino;João e Maicon,cagados. Mesmo assim, Maicon decidiu seguir a agenda e discursar na praça no Domingo.

O discurso contaria com um forte esquema de segurança.João e seu bando inclusive se instalariam num casarão abandonado, localizado logo atrás do palanque. A polícia estaria espalhada pela multidão. Dois dos melhores homens de João seriam os guarda-costas do prefeito.

O espetáculo era questão de tempo: o palco estava armado e haveria uma grande platéia. O fantasma mascarado preparava-se;seria o seu maior público e a sua melhor apresentação.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Poesias Capengas, talvez.

Ainda não sei o que é isso; algumas poesias capengas,talvez.



Impar

Fui dragado pelo meu inverno;
Andei em círculos na neve,
Faminto e sem esperança,
Não pude lutar, nem fugir.
A noite caiu, e com ela eu também.

Purgatório

Eu nada mais queria
Senão contemplá-la
Em minha solidão.
Ó anjo diabólico
Que se fez maldição.

Eu nunca iria tê-la
Senão em sonhos torpes
Que dois corpos são um só.
Ó anjo diabólico
Que me fez perdição.

Eu jamais a veria
Senão em minhas febres
De poeta e pateta.
Ó anjo diabólico
Que arde com sua boca.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Vingança em Cena - 1° Ato

Máscaras Do Teatro (comédia Da Tragédia)

Aconteceu em alguma ilha remota...

A noite ostentava uma bela lua cheia e a brisa morna acrescentava um toque mágico. Aquela noite seria um marco para a sociedade da ilha; a multidão se aglomerava em torno do teatro. A companhia teatral preparou algo especial, que perturbaria os poderosos e daria fim ao longo silêncio. A ilha era controlada por três homens inescrupulosos:

O rico empresário, Nestor Figueira, mantinha o domínio - direto e indireto - de todos os estabelecimentos comerciais,industriais e imobiliários da ilha. Os preços eram, absurdamente, altos e devoravam o mísero salário dos trabalhadores. Era um homem baixo, franzino, de óculos e com 57 anos. Posava de devoto fervoroso, mas não tinha remorso no tratamento desumano para com seus inquilinos e empregados. Casas caras de péssima qualidade, remuneração miserável e nenhum segurança no trabalho; e assim, ele ia poupando dinheiro e arruinando vidas.
O chefe do crime, João Meira, era o responsável por todo tipo de serviço sujo: prostituição,estupros,tráfico,assaltos e violência gratuita ou encomendada. Despertava medo e nojo em todos, ninguém levantava a voz para ele. Era um homem robusto -entenda-se por gordo-, com 40 anos, de uma cara debochada e um olhar ameaçador. Nestor e Maicon tinham sempre um serviçinho para João; que ele fazia com prazer.

O prefeito, Maicon Dhab, possuía o “dom” da politicagem. Condenava a violência e a corrupção nos seus discursos enérgicos; embora ele praticasse ambos - vai entender. Ganhava muito dinheiro por fora. Semanalmente, discursava na praça e, no final do seu falatório, o povo brandia a mão; após singelo incentivo do pessoal do João. Quem não brandisse ou comparecesse, simplesmente, desapareciam do mapa. A polícia e a imprensa estavam minadas pela influência de Maicon.

Ninguém ousava criticar esse tripé do poder, mas aquela noite foi atípica. O enorme e rústico teatro abrigou quase toda a população da ilha, incluindo os três poderosos. Foi uma bomba, o roteiro satirizava os meios de poder daquele tripé; insinuaram a hipocrisia da religião de Nestor, dos discursos de Maicon e, por fim, ironizaram a covardia de João, que só atacava com bandos armados. Gargalhadas tomaram o espaço, enquanto os poderosos se contorciam nos seus acentos. Uma cena foi estupenda, os três brincavam numa casa de bonecas, decidindo qual as roupas dos brinquedos e quem merecia viver; não passavam de um bando de mimados.

O espetáculo foi interrompido antes do término. O grupo de João, todos armados, mandaram que o público saísse, o que não demorou, apesar do teatro ter só uma saída. O espaço ficou quase deserto, Maicon apontou o dedo para o elenco e balançou o braço freneticamente, comprimindo todos os músculos da face. As conseqüência seriam terríveis.

Na noite seguinte, o teatro era uma enorme pira. O incêndio foi acidental segundo a perícia e, posteriormente, a imprensa. Mentira. João e seu grupo, a mando de Nestor e Maicon, colocaram fogo na estrutura. “Ninguém tinha escapado, o fogo consumiu todos” afirmava o laudo. Estavam enganados, um jovem conseguiu ultrapassar a saída, antes que o forro cedesse e interditasse a passagem. Quem era ele?

Dois dias depois do desastre, um rapaz aproximou-se dos escombros, ajoelhou-se e recolheu a metade queimada de uma máscara feliz.

- Juro, os responsáveis pela morte da minha Dora, da minha família e dos meus amigos, pagarão com a vida - duas lágrimas correram.

Olhou ao seu redor.

- As pessoas merecem algo melhor do que as rédeas desses três mimados.Essa será minha última peça; minha melhor peça.

Nascia um personagem de máscara ora feliz, ora triste; e Nestor seria o primeiro a presenciar sua atuação.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

As Cartas


O destino,naquele dia nublado, reservou uma série de situações curiosas. O jovem Juca Kipp teria uma surpresa naquela manhã de outono. O vento brincava com as folhas que o tempo consumiu e a chuva se aproximava. Juca vestiu o primeiro casaco ao seu alcance e foi verificar a correspondência. Muitas coisas passavam por sua mente; seu bem querer não era seu - e nunca seria - e a guerra batia na sua porta. Quando abriu a caixa de correspondências, deparou-se com duas cartas: uma era de uma pompa maldita e a outra bastante simples.

Levou as cartas para dentro de casa e, após um longo suspiro, abriu a pomposa. “Juca M. Kipp, o senhor está convocado para lutar pela tua pátria...”, Juca soube que partiria para a morte certa; a guerra, numa região remota do globo, era responsável por um número hediondo de mortes humanas. Juca Kipp já estava arrasado com a impossibilidade de fazer feliz quem gostaria, da maneira que gostaria... E agora isso? Ser o peão de um guerra baseada na incapacidade política e na ganância?

Esmagou a carta com a mão esquerda e a arremessou com violência. “- Que porra! - finalizou”. Levou as mãos à cabeça e procurou raciocinar. Após alguns minutos, olhou para a outra carta. Apanhou-a e leu o impossível. As palavras no envelope eram claras: “ De: Juca M. Kipp Para: Juca M. Kipp”. O conteúdo seria muito mais perturbador.

“Eu sou você em outra dimensão. Isso é realmente estranho, mas você deve acreditar ao verificar a grafia e saber do que eu sei:você sonha todas as noite com corvos. Não importa como essa carta chegou até você, importa que chegou. Soube que eu, em outra dimensão, estava numa situação desgraçada. Juca, na minha dimensão eu(você) estou com quem queria estar e ela está feliz ao meu lado. Tudo aconteceu perfeitamente, como planejei. Espero que tenha ajudado. ”

“Eu sabia que nós íamos conseguir, Beth; estamos juntos e felizes ”, pensou o jovem Kipp e,em seguida, foi para a junta militar.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O Vilão Desempregado

Waldsneidson Jacques, 47 anos, era um vilão desempregado dos quadrinhos tentando a sorte no mundo real. Não estava fácil encontrar emprego; os setores da maldade,desastres,e criminalidade estavam abarrotados de gente qualificada,ou melhor,desqualificada. A idade não ajudava muito, as leis, que impedem a discriminação e garantem a igualdade de competição, eram desrespeitadas pela vilania; é, não só pela vilania.

Waldsneidson, ou Dr. W, sonhava com suas antigas façanhas. Sempre suspirava quando lembrava do “Raio da Fome“, dos assaltos à velhinhas ,dos roubos ao banco e tudo mais. Esses planos nunca davam certo, mas ele gostava mesmo assim do seu trabalho. Na vida real, a fome é problema assolador e os assaltos infinitos; Dr.W não tinha chance nesse novo mundo.

Certa vez, Dr.W estava sentado num banco de praça e reconheceu o seu arqui-inimimo, Dimi Dínamo .

- Ei! Dimi! - chamou-o.

- Dr.W? O que você faz na realidade?

- Precisava de um emprego, porque nossa revista de quadrinhos acabou, como você sabe...

- Entendo. Qual sua nova ocupação?Ou ainda continua no crime?

- Tô desempregado, as vagas de maldade e criminalidade são poucas; muita gente trabalhando nisso. Pensei em criar problemas como queimadas ou fome, mas já tem um monte também.

- Tenta outra coisa.

-É... Mas e você o que tá fazendo?

- Agora sou funcionário público. Tentei o emprego de super-heroi, mas as condições de trabalho tão horríveis; o sindicato da classe tem reclamado bastante. Ser heroi tá foda. Bons tempos em que eu sempre salvava todo mundo. Agora é difícil me salvar.

Os dois se despediram cordialmente, como velhos amigos. No dia seguinte, Waldsneidson procuraria ajudava especializada, um psicólogo talvez.

(continua...)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Dançando com Sombras - Parte IV (Final)

Os guardas surgiam e a faca dançava, recortando sombras e se embebedando de sangue. Cinco carcereiros ao chão. Eu estava num estado de frenesi: olhos saltados, respiração ofegante e batimentos acelerados. Observava a lâmina ensangüentada, quando a porta foi aberta. Uma luz ofuscante e duas silhuetas.Após minha visão acostumar-se, percebi; Viviane e um estranho. A estranha figura aplaudiu e apontou um revólver para mim.

- Basta, você já cumpriu com o seu propósito - o homem desconhecido disse em tom autoritário.

- Hã?

-Permita que eu explique. Você é como uma cobaia de laboratório, participa de um experimento e pronto.

- Que merda é essa?! Por que estou aqui?! - Samuel gritava agonizado.

- Uma experiência sobre os sentimentos primários do homem. Você foi escolhido aleatoriamente, não pense ser especial ou perseguido. Limpamos suas memórias e te trouxemos para cá; o nosso “laboratório”.Prepare-se para dormir. Um,dois...

- Espere! O que vai fazer com ela?

- Nada, ela trabalha para mim.

Samuel olhou chocado e não proferiu nenhuma palavra.

- Você achou que tudo foi destino? A cela vizinha e tudo mais? - indagou gargalhando.

- Isso é mentira! Como sabiam que eu olharia para ela na fila e conversaria por aquele maldito buraco?!

- Nem tudo é planejado. Como disse, você é uma experiência, ou seja, podia dar certo ou não; o experimento foi um sucesso - falava sem esboçar arrependimento e seus olhos até brilharam ao dizer “sucesso”.

Subitamente, lembrei das últimas semanas. Das estranhas coincidências. Uma mentira, uma armação.

- Você sentiu amor,ódio,dor e,enfim, vingou-se. Não existiram outros prisioneiros ou carcereiros, não passou de uma encenação pela ciência.

Samuel ajoelhou-se. Júlio, meu chefe, aproximou-se da triste figura ajoelhada. Gargalhando, apertou o gatilho.

- Adeus, minha cobaia - Júlio afirmou tomado pelo sarcasmo.

Pensei: “Por que lutar, se eu vivi uma mentira e nem sequer tenho um passado? Não sou capaz de lembrar da minha família, meu amor é uma farsa e tornei-me um animal; para que resistir?”. Atirou no meu ombro direito, a faca caiu. Repensei: “Morrer de joelhos, pelas mãos do meu carrasco;ele vai ficar perplexo com o último resultado da sua experiência”.

- A experiência está fora de controle - os lábios de Samuel esboçaram um sorriso.

Recuperou a faca usando a mão esquerda, fincou no pé de Júlio, que revidou disparando. Não era o fim. Samuel atacou mais três vezes, perfurando o peito do oponente e fazendo a verdade jorrar. Júlio estava morto. Em seguida, Samuel desabou e fitou-me eternamente; também havia morrido. Eu o matei. Larguei meu emprego. No fundo, morri também.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Dançando com Sombras - Parte III



As manhãs passaram. As noites ficaram. A luz do dia me trazia a agonia, a treva da noite a magia. Talvez, estivéssemos apaixonados e a felicidade fosse questão de tempo; mas não. Lembro dos risos, das juras e das promessas de liberdade; apenas lembro. Restou um oco no peito, um futuro de migalhas e uma raiva profunda.

Uma luz cortou minhas pálpebras; despertei. Escutei uma movimentação estranha, a porta da minha cela foi aberta e um coro de risadas tomou o éter. As “sombras” estavam diante de mim.

- Hoje, levaremos a sua namoradinha – o maldito, então, gargalhou.

Levantei e encarei aqueles seres “sem” face. Uma mulher e um homem escoltavam Viviane para fora da cela. Eu não hesitei, investi com fúria contra os carcereiros. Tolice. Fui imobilizado. Ela estava cada vez mais longe. Gritei até ficar sem forças e Viviane me fitou desdenhosamente; nunca me esquecerei daquele olhar marejado e julgador.

- O que foi que eu fiz?

- Você mentiu para mim. Você não nos salvou – ela sentenciou.

Foi a última coisa que vi, antes de ser desacordado. Uma brisa melancólica beijou meu rosto, acordei aos poucos, apoiei a palma da mão no chão e sentei. Coloquei a mão na cabeça; sangue. “Droga” - pensei. Meu réquiem havia começado.Sussurrei uma palavra na calada daquela noite sanguinolenta: “Vingança”. Culpei as “sombras” pela minha incapacidade. Estava me transformando, a “culpa” seria minha justificativa e a vingança meu prazer. Não sabia se era por ódio ou por amor.

Seria impossível reaver o que me foi roubado: o passado, o presente, o futuro. Mas não ficaria de joelhos a espera do próximo golpe.O amor e o ódio dançariam aquela tarde. Um dos guardas entrou para inspeção de rotina, eu estava cabisbaixo,sentado num canto e encolhido. Ele estranhou e aproximou-se. Levantei o olhar e percebi um objeto reluzente na cintura dele; uma faca.Um sabor amargo na boca e uma escolha feita de ferro surgiram. Decidido, tomei a faca e cravei-a no peito do seu antigo dono; senti uma satisfação sombria e gargalhei. Saí pelos corredores a fim de encontrá-la e erradicar as "sombras".

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Dançando com Sombras - Parte II

Segui aquela triste fila. Olhei para a esquerda, e então, nos fitamos;ela era o ser mais belo que já tinha visto, seu olhar e sua boca desenhados por mim,desenhados para mim. Em seguida nossos olhares se perderam; eu entrava num pavilhão, o pavilhão ‘S”.

Cada prisioneiro foi encaminhado para uma cela; um homem,uma mulher,um homem,uma mulher e assim sucessivamente. Ela passava pela minha frente, seríamos vizinhos - ou algo equivalente naquele contexto.

Meu “dormitório” era um cubículo repulsivo, úmido e imundo. Pensei: “Que espelunca!”. Os ratos estavam melhor acomodados - sem dúvida. Minha alma ficaria podre com o tempo, tal como aquele lugar. Um prato de “comida” foi lançado por uma abertura na porta. As luzes apagaram.

Engoli, vomitei. Tateei as paredes, até que encontrei um buraco na parte inferior. Abaixei a cabeça e sussurrei algumas palavras.

- Tem alguém aí?
Três minutos se passaram. Escutei alguém chorar, vinha da direção daquela abertura.

- Tem alguém ai?!

- Oi - respondeu uma voz chorosa.
- Foi você quem olhei lá fora?

- Sim.

- Qual o seu nome?

- Viviane.
- E o seu?
- Samuel.

Não direi: “Ah! Como foi agradável, estar preso e com a cabeça perto do meu vômito; mas houve um toque sublime”. Conversamos algumas horas sobre o desespero e as dúvidas; ela também não sabia o porquê daquilo. Nos despedimos.Adormeci.


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